Dublinia: a experiência Viking da Irlanda

Quem é apaixonado por história ou até mesmo quem estudou um pouquinho, já ouviu falar dos Vikings e da Idade Média (Período Medieval), não é mesmo? E eu pude reviver de pertinho, estes períodos que marcaram a história, além de descobrir tudo sobre como Dublin foi fundada como um assentamento Viking.

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Os vikings eram navegadores da Escandinávia (Noruega, Suécia e Dinamarca) e, no final do século VIII e durante o século IX, começaram a invadir e, depois, gradualmente, a se estabelecer e se misturar à sociedade irlandesa. Ao chegarem na Irlanda, os Vikings, a maioria de origem norueguesa, eram vistos como invasores, afinal, roubavam as riquezas dos monastérios, capturavam prisioneiros e os vendiam como escravos na Escandinávia. Foi apenas a partir de 841 que eles iniciaram atividades comerciais e começaram a trabalhar como artesãos, criando assim, os primeiros assentamentos Vikings em Dublin.

Atualmente, o Dublinia é um incrível museu que conta toda a história dos Vikings na Irlanda, bem como parte do Período Medieval. O local é uma construção incrível, ao lado da Christ Church, e já foi o Synod Hall, da Church of Ireland, construído em 1875.

A exposição é dividia em três etapas: Vikings, Medieval Period (Idade Média) e History Hunters (Caçadores de História). O museu mostra como era a vida em Dublin neste período, através de reconstruções incríveis.

Na fase Viking, o Dublinia retrata todo o patrimônio e legado deste povo que fascina pela história. Além disso, é possível explorar os costumes, hábitos, crenças, vestes, armas, comércio e, claro, os guerreiros e deuses.

Ragnarök

Ragnarök é o evento profético que representaria o fim do mundo, de acordo com a mitologia nórdica.

Na parte Medieval, você vai viajar por Dublin, em uma incrível miniatura da cidade, no ano de 1170. Além disso, é possível passear pelas ruas, vilarejos, casas, comércio e portuário. Tem até uma sessão dedicada à morte e as doenças da época.

No final da fase da Idade Média, tem um espaço dedicado às Rebeliões Irlandesas, que culminaram na Reforma Inglesa, marcando o final do período medieval.

Espaço dedicado às rebeliões irlandesas

Espaço dedicado às rebeliões irlandesas

O último andar, o History Hunters, é dedicado ao trabalho arqueológico e as escavações que levaram às descobertas sobre a origem de Dublin. Existe até um laboratório, que retrata com realismo, como tudo foi descoberto. Tem área interativa e explicações sobre os achados, corpos e ossos, além da reconstrução facial de uma mulher da Idade Média.

A visita é autoguiada para que você possa sentir e curtir cada detalhe. Tudo é muito interativo e você pode tocar em objetos, sentir o cheiro das especiarias, ler painéis, escutar os áudios espalhados pelo museu, fotografar com bonecos que parecem reais e até provar as roupas da época. É como se você estivesse fazendo uma viagem de volta no tempo e parado exatamente naquela parte da história. Fotografias só não são permitidas no último andar da exposição.

O valor da entrada é ‎€9,50, mas estudantes que apresentarem a carteirinha pagam ‎€8,50. Para maiores informações, acesse o site do museu Dublinia.

OBS: Só quero compartilhar que nunca fiquei tão feliz em pagar 8,50 por um ticket de museu!

Amizades: o que o Intercâmbio une, oceano nenhum separa

A gente chega querendo ser adotado, com cara de cachorro abandonado, louco pra que alguém nos abrace e diga: “Senta, eu sei o que você está sentindo, mas acredite, tudo vai ficar bem.” E vai mesmo.  Ah, e se você é daquelas pessoas que vem com a intensão de passar um período de solidão, longe de tudo e todos, eu sinto em te avisar, mas sua missão será falha.

Quando a porta do hostel se abre já surge o pensamento de: “Meu Deus, o que eu estou fazendo aqui?”. Aí um moço simpático te acolhe com um sorriso: “Seja bem vinda”. Você entra morrendo de vergonha, mas um pouco mais tranquila em sentir um pouquinho do aconchego brasileiro.  Sim, é possível fazer amizades que valem a pena dentro de um quarto de hostel. Afinal, como não se identificar com o ‘mas que bah’ do casal gaúcho e não tirar sarro cada vez que o casal mineiro/carioca fala ‘Texco’.  E a atleta de bodybuilder com suas histórias maluquinhas e coração gigante? E como esquecer aquele que te irrita com as idiotices, mas que também te ajuda pra c4r$l#o com o Google Maps pela cidade.

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Bah, bora comprar pão de queijo no ‘Texco’?

Próximos amigos? Sim, claro. Eles serão os seus flatmates. E olha que serão muitos. E você vai aprender a conviver com cada diferença, vai ter que limpar a sujeira que não foi você quem deixou na pia, vai acordar com a bagunça dos meninos jogando vídeo game às 4 da manhã, vai gritar, vai espernear, vai querer jogar um pela janela. Sim, você vai. Mas também vai querer um abraço de urso do flatmate mais fofo e vai rir horrores com o que é meio surdinho. Vai aprender a mandar mensagem pra alguém ligar o boiler pra você poder tomar banho quente e vai ter que ligar também. Vai ficar preocupado quando alguém não está em casa e não avisou aonde ia. Vai amar cada um de uma maneira diferente. E eles vão estar sempre lá, pra te emprestar um ombro, secar tuas lágrimas, dividir alegrias e fazer muitas viagens.

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Depois? Depois vem os amigos da escola. Aqueles que vão brigar com você na diretoria, que vão tirar um professor da sala e ele não vai mais voltar. Aqueles que também querem aprender inglês, mas, que depois, da aula vão falar: “Vamos tomar uma pint na Diceys?”. Eles serão seus confidentes quando for compartilhar o quanto o professor novo é bonito e vão te ajudar a ensinar palavrões e gírias em português para o professor zoeiro. E você vai sentir tanta falta deles quando sua aula acabar.

Aí vêm os amigos da vida, aquele que cruzam seu caminho sem querer, que só falam inglês e que você sempre pensou ser impossível manter uma conversa, afinal, na primeira vez que os viu falou: “Sorry, I don’t speak English”. E eles vão rir e lembrar disso  todas as vezes que você os encontrar.

Só que quando um parte, ahhh, vai doer. E como vai. Talvez vocês nunca mais se encontrem, talvez passem férias um na casa do outro, ou talvez você até seja convidado para um casamento. Mas a única certeza é de que os momentos que passaram juntos jamais serão esquecidos.

São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Paris, Las Vegas. Fabi, Gui, Maria, Antônio, William, Lea, Sheila, Ju, Paulo… não importa quem, não importa em que parte do mundo. Agora o teu coração var ser igualzinho ao Mapa Mundi, só que dividido com a saudade.

EATYARD: a Street Food de Dublin

Em uma coisa precisamos concordar, se existe algo que deixa as pessoas felizes, com certeza é comida. E quando ela é boa e num ambiente totalmente diferente, tem tudo para conquistar o nosso coração. Então, se você ama o conceito de comida de rua, precisa conhecer o Eatyard!

O Eatyard é um Food Market, em uma ruazinha de Dublin, que reúne diversos restaurantes em trailers, muito parecidos com os Food Trucks, e que tem como principal objetivo promover o Irish Street Food e proporcionar uma experiência única de lanche/jantar casual. E é claro que eu tinha que ir conferir de perto toda essa maravilha.

Ao chegar, você já percebe que o ambiente é bem ‘street’ mesmo e com uma vibração tão boa que te conquista logo de cara. A presença da arte Grafite nas paredes e a simpatia dos vendedores nos trailers também chama a atenção. Tá, mas você deve estar se perguntando: “-Mas e a comida?”. Então, confere aí algumas das opções que você encontra no Eatyard:

1 BOX BURGER

Box Burger

É um hambúrguer gourmet, um pouquinho maior que o normal e com muito recheio (o que faz você lamber os dedos, literalmente). Eles também servem hambúrguer para quem é intolerante a Glúten, então não  há desculpas para não provar. Ah, antes que eu esqueça, no momento do pedido, você joga três dados. Se formar a palavra BOX, o lanche é por conta da casa.

Box Burger

É claro que eu não consegui formar a palavra Box

2 VEGINITY

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Foto: Divulgação Eatyard

É o trailer que oferece comida vegana/vegetariana e que deixa qualquer um com água na boca.

3 PASTA BOX

Pasta Box

Foto: Divulgação

No Pasta Box você vai encontrar o autêntico sabor da Itália. Então, é só escolher o macarrão, selecionar o molho e aproveitar! Ah, já aviso, para a tristeza de todos os brasileiros que passam pelo Eatyard, a imagem da foto não é coxinha. É apenas um bolinho frito, de arroz, que pode levar algum tipo de recheio.

4 BUBLLE WAFFLE

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Confesso que esse foi a razão pelo qual decidi conhecer a feirinha. O Bublle Waffle está entre os mais populares do Eatyard, mas também, não é para menos. O lanche é um waffle de bolha, em formato de cone, cheio de sorvete e frutas, chocolates, diversos tipos de cremes e coberturas (a sua escolha).

Claro que ainda existem muitas outras opções, que você pode conferir aqui.

Ficou curioso? Então que tal uma passadinha por lá? O Eatyard está localizado na  9-10 South Richmond Street, bem ao lado do Bernard Shaw. O horário de funcionamento é de quinta-feira a domingo, a partir das 12 p.m.

Bublle Waffle

A vida de ninguém para pra esperar você voltar

Quando a gente decide ir embora, de certa forma, a gente morre. Sim, é isso mesmo. No começo é difícil conviver com a distância, mas a verdade é que a vida de ninguém para pra esperar você voltar. E a sua também não!

Eu sei, é difícil ler isso. Você sente um nó apertar na garganta. E acredite se quiser, escrever é ainda pior.

Semana passada foi a formatura da minha melhor amiga. Claro que eu recebi o convite, mas eu não estava lá. Eu também não estava quando meu afilhado fez a primeira apresentação na escolinha e nem quando minha sobrinha deu os primeiros passinhos. Eu não estava no aniversário do meu pai e nem na festa de natal na casa do meu avô. Eu não estava lá quando meus amigos resolveram fazer aquela viagem que tanto planejamos e nem quando meu melhor amigo terminou o namoro de seis anos e precisava do meu abraço.

Sim, você pode deixar combinado com todo mundo para que te incluam em todas as atividades, mesmo que pela câmera de um celular, mas não é bem assim que acontece… Chega um dia em que eles já não te ‘avisam’ mais aonde será o encontro do final de semana e também não te incluem mais nos grupos de WhatsApp para combinar àquela festa surpresa para o próximo aniversariante.  E a família? Ah , essa se acostuma com o fato de você já não estar mais presente nos momentos especiais e, toda vez que alguém tenta contato, as lágrimas são inevitáveis.

É claro que nos sentimos culpados por estar longe, por saber que nossos pais estão envelhecendo e não estamos por perto. É claro que queremos estar lá, mas sem deixar de estar aqui! É por estas e outras que estamos sempre nos perguntando se vale a pena viver longe das pessoas que amamos e, apesar de saber perfeitamente todos os motivos que nos trouxeram até aqui, estamos sempre nos questionando se viver longe é o que realmente queremos.

É, é difícil não estar lá, ter que seguir um caminho totalmente diferente do que os outros estão acostumados e, mesmo assim, enfrentar tudo com o coração dividido entre ficar ou partir. Mas, diferente de quem morre, nós, que estamos sempre na estrada, temos um mundo para desbravar. E, pra amenizar a eterna frustração de não poder estar em dois lugares ao mesmo tempo, as únicas coisas que nos cabe são uma mochila nas costas, a câmera na mão e um punhado de saudades no coração.

Um ano longe de casa

Nem eu acredito que cheguei tão longe. Um ano que minha vida deu um giro de 180°, é um ano de Irlanda! E, como num piscar de olhos, esses 12 meses passaram tão rápidos que consigo recordar, como se fosse hoje, o dia em que entrei naquele avião. Foi o dia mais feliz e, ao mesmo tempo, mais triste da minha vida. Conforme o avião decolava, vi, ficando para trás, todas aquelas coisas que lutei durante algum tempo para fugir ou esquecer, mas, ao mesmo tempo, os bens mais preciosos da minha vida.

No começo, eu não via a hora dos 8 meses passarem rápido para eu poder ir para o Egito, ficar por lá mais dois meses e voltar para o Brasil ‘as soon’. Mas ainda bem que a vida nos reserva surpresas e a minha foi descobrir que eu amo esse lugar!

Foi um ano de descobertas, de estudos, de aprendizados, saudades e sonhos vividos. Aprendi a amar via Skype e matar a saudade pela câmera do computador. Algumas amizades no Brasil se perderam, outras só fortaleceram e, nesse percurso, uma até muito especial, de alguém que, mesmo do outro lado do oceano está comigo em todos os momentos e me conhece tão bem que, às vezes, até me assusto❤.

Aprendi que eu não preciso estar bem vestida, maquiada, de salto alto, ser magra e essas coisas todas, para ser bonita. Aqui, as pessoas valorizam muito mais o que você traz no coração do que a beleza exterior. E eu continuo aprendendo, todos os dias… principalmente a ser eu mesma, sem estereótipos. Aprendi que, para ser feliz, muitas vezes, eu não preciso muito mais do que uma mochila nas costas e minha câmera na mão. Ahhh, e como eu fui feliz neste um ano.

Eu também tive um Natal lindo e uma virada de ano perfeita. Mas vi minha melhor amiga se formar na faculdade sem mim e tive que chorar por Skype ao ver minha sobrinha dando os primeiros passinhos. Por outro lado, ganhei uma família aqui na Irlanda, com duas crias que eu aprendi a amar de uma forma inexplicável.

Aprendi que aeroportos são os locais mais felizes e, ao mesmo tempo, mais tristes do mundo. Que despedidas são inevitáveis e encontros inesquecíveis.  E hoje eu entende perfeitamente o porquê algumas coisas não deram certo na minha vida antes. E, se tem uma palavra que define tudo isso, é GRATIDÃO!

Sim, fiquei doente

Começou com uma tosse (porque a pessoa vai passear debaixo da chuva e muito frio), depois a dor na garganta e uma inflamação. Aí já viu né, doente, em outro país, sem a família por perto, claro que a carência ia aparecer.

 

Por mais bobagem que possa parecer, deitar na cama e chorar (e olha que nem sei se foi por estar doente), foi o que eu fiz. Tudo o que eu mais desejava era o abraço do meu pai. Não, eu nunca fui daquelas pessoas que corre para a casa dos pais quando pega qualquer gripe, ao contrário, sempre vesti uma armadura pra parecer ser mais forte do que eu realmente era. Mas quando a gente está longe, tudo muda.

 

Ah, que falta que faz aquele chá horrível, de uma mistura de alguma coisa com não sei o que, de gosto amargo, mas que ele fazia com tanto amor, que em apenas um gole, já mandava qualquer mal-estar embora. Que falta faz aquela sopa, com sabor de água e sal, que ele fazia e eu era ‘obrigada’ a tomar. Quanta falta faz aquele aviso antes de sair de casa: ‘Lili, leva o casaco, porque você vai ficar doente de novo’; ou ‘Lili, é melhor você levar um guarda-chuva, pega esse aqui’.

 

É, a gente cresce, tem que se virar sozinha; olhar pra uma caixa cheia de remédios e ir procurar no Google ou mandar foto pra amiga farmacêutica para descobrir pra que serve cada um.

 

A gente cresce, aprender a voar sozinho, mesmo que, às vezes, com as asas machucadas.

E aí, vai deixar o ano acabar mais uma vez?

Ano novo e, com ele, aquela remexida no nosso interior, que faz reaparecer àqueles desejos guardados durante 365 dias. Mas aí, o tempo vai passando e eles voltam para a nossa ‘gaveta’ mais uma vez, pra reaparecer só próximo ano, né?

Nessas últimas semanas, fui surpreendida por duas mensagens, a primeira delas, no blog, dizendo: “Liliane, desculpe, sei que nem nos conhecemos, mas precisava compartilhar com você. Trabalhei por 13 anos numa empresa e agora, com 29 anos, pedi demissão e resolvi que vou viver o meu sonho de fazer intercâmbio”.

A outra, do meu amigo, William, lá de Passo Fundo: “Lili, larguei meu cargo na vida pública e estou indo para o Canadá!”.

Gente, ao ler isso, um arrepio subiu a minha espinha e uma sensação de felicidade tomou conta do meu coração. Quantas vezes deixamos nossos sonhos de lado por medo do que a sociedade vai dizer ou pensar? Quantas vezes deixamos de dizer um eu te amo por medo de não sermos correspondidos? E a faculdade que fazemos apenas porque nossos pais querem ou porque é o que cabe no bolso e podemos pagar? E o namoro ou casamento que não vai bem, mas mesmo assim insistimos em levar adiante?

Não, não me interprete mal! Eu sei que não é simples assim e eu não quero que você saia por aí, chutando o balde, largando emprego, pedindo a separação, trancando o curso da faculdade ou comprando uma passagem para o primeiro voo rumo a qualquer lugar do mundo… longe disso. Eu quero apenas que você reflita o que está fazendo da sua vida e se vale a pena passar o resto dela fazendo aquilo que você não tem certeza se é ou não para você, vivendo o que os outros querem que você viva.

Sabe, quando eu resolvi ‘largar’ minha vida no Brasil para morar na Irlanda eu tinha dois medos. O primeiro deles era chegar aos 30 anos de idade sem ter carro, apartamento ou uma carreira consolidada, mas, por outro lado, viver tudo o que eu sempre quis, todos aqueles pequenos sonhos que muitos julgam como bobagem. Já o segundo, era chegar aos 50 anos com um super apartamento, carro zero, emprego dos sonhos, mas olhar para trás e perceber que não vivi meus sonhos, por medo ou insegurança do que os outros iriam pensar. E você tem alguma dúvida de qual das duas opções mais me assusta?

Por mais pequeno que seja seu sonho, por mais insignificante que ele possa parecer, não deixe passar. Não viva aquilo que não lhe faz bem. DESINTOXIQUE-SE, ENCORAJA-SE e VIVA de verdade, para depois não chegar no final e dizer “e se eu tivesse…”. Que 2017 traga mais THAÍSes,  mais WILLIAMs, mais LILIANEs.

O Natal, a distância, o amor e a saudade

Sabe, eu tinha planejado que seria diferente. Era pra ter voltado no início de dezembro, e eu não via a hora disso acontecer logo nas primeiras semanas de Dublin. É, foram dias difíceis: saudade, medo, insegurança. Mas aí o tempo passou e eu percebi o quanto esse lugar me fez e ainda faz bem. Então decidi ficar.

E eu, que sempre acompanhei a vida de outros intercambistas por aqui, via fotos da comemoração natalina de brasileiros em pubs e, no fundo, eu sabia que meu natal também seria assim. Eu já esperava um natal diferente, meio que vazio, longe de casa, distante de um lar de verdade e daquele calor familiar.

Eu sabia, desde o momento que optei ficar por mais 8 meses que eu não iria acordar e correr dar um abraço no meu pai de Feliz Natal e nem ir ao encontro do meu afilhado, com um presente, louca pra ver a carinha de alegria dele ao ver aquele ‘pacotão’ que o Papai Noel trouxe. Sabia, também, que eu não iria sentir o cheiro da casa da minha vó e nem o sabor da comida da minha mãe. E que toda aquela gritaria da junção da família não seria ouvida neste ano. Mas o que eu não sabia era a falta que tudo isso poderia fazer.

Mas aí vem a vida e me dá um tapa na cara. Àquele diferente de todos os outros, que não estamos acostumados a receber. Um tapa de alegria, aquele tapa de amor, sabe? Com toque de carinho e que nos faz sentir amado de novo. Não, minha família brasileira não veio para Dublin e eu também não ganhei uma passagem aérea como acontece nos filmes ou nas propagandas de natal. Eu encontrei no meu Au Pair a minha própria família aqui na Irlanda. E eles fizeram do meu Natal, o mais lindo da minha vida.

Nóis viaja, mas é cada marmita que nóis come

Basta postar uma foto nas redes sociais bebendo um vinho ou comendo algo diferente que alguém vem e comenta: “ficou rica agora?” “Tá podendo, né?!”. Pois é, mas não é bem assim! Ninguém sabe que, por trás daquela viagem, tinha um orçamento apertadíssimo, que você passou o tempo todo com uma marmitinha e fazendo os passeios free da cidade, ou comprou todos os bilhetes com meses de antecedência para pagar mais barato. Que você teve que carregar uma mochila super pesada pelos passeios porque todas suas roupas tinham que caber dentro dela para você não precisar pagar excesso de bagagem e você não podia deixar ela no hostel porque a sua diária só começava a contar de tardinha. E que você só está bebendo vinho porque aqui ele custa 6 euros.

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Mochila e mala fazer parte do passeio

Por isso, prepare-se, você vai saber o lado do meu intercâmbio que compartilhei com poucas pessoas. Por quê? Simplesmente pra você saber que nem tudo são flores.

1. Para começar, não poderia deixar de citar a imigração em Londres. Antes de chegar em Dublin, minha conexão foi na Inglaterra. Como eu não sabia nada de inglês (ou achava que sabia), fiquei 15 minutos ‘presa’, porque não entendia o que a imigração falava, o que me fez perder o voo pra Dublin.

2. Encontrar casa. Sério gente, isso foi meu primeiro grande sofrimento aqui. Eu caminhava quilômetros, todos os dias, visitei lugares imundos, meu pé foi se recuperar depois de uns 2 meses de Dublin. Mas, no último minuto do segundo tempo (último dia de acomodação no hostel), eu consegui meu primeiro lar. (Contei como foi encontrar acomodação na matéria Encontrando acomodação em Dublin: a saga!)

3. Não, eu não morava sozinha. E, dividir casa com outras 5 pessoas, também não é fácil, afinal, você precisa aprender a respeitar o espaço do outro e conviver com personalidades muito diferentes da sua. Às vezes, dava uns quebra-pau, mas quem nunca, né? Ah, nas fotos, ninguém vê o varal no meio da sala. Sim, como Dublin chove a cada segundo, o varal fica dentro de casa mesmo, onde tiver um espacinho.

4. Roubaram meu celular. Aqui é muito comum ‘knackers’ passarem de bike e tirar o celular da sua mão. Claro que isso tinha que acontecer comigo também, né?! Ah, eles também jogam ovo nas pessoas, mas dessa eu me livrei.

5. Abrir a conta no banco. Como vocês devem saber, é preciso comprovar 3 mil euros para tirar o visto na Irlanda. Pra isso, você precisa abrir uma conta no banco, tirar um extrato e levar até a imigração. Só que aqui, não é simplesmente você ir no banco e dizer ‘preciso abrir uma conta’, como no Brasil. Você precisa de documentos da escola, comprovante de residência e um monte de coisa lá.. O problema é que eu cheguei justamente quando deu toda aquela bagunça em que os bancos não estavam mais aceitando a carta da escola como comprovante de residência. Resultado, meu dinheiro extra estava quase acabando, tive muitas dores de cabeça na escola e chorei, chorei muito (quem me conhece sabe que eu realmente chorei haha). Mas no fim, deu tudo certo, consegui uma agência bancária que aceitou a carta e pude pegar meu visto (lembro que agora, as regras para comprovar os 3 mil euros mudaram de novo).

6. Consegui casa, mas longe do centro. Isso me fazia caminhar por uma hora para ir e uma hora para voltar da escola. Tudo porque, a grana de intercambista é curta minha gente!

7. Frio e chuva. Todos os dias, quando cheguei, chovia. E nem adiantava comprar guarda-chuva, porque o vento de Dublin é tão forte que carrega pra longe. Chegar na escola ou em casa molhada, já era parte do ‘uniforme’.

8. Dormir no aeroporto. Esse foi pra acabar, sério! Comprei minha passagem de volta de Amsterdam com a data errada e só fui perceber quando cheguei para fazer o check-in. Como eu viajo com dinheiro contadinho e o aeroporto é longe da cidade, não restou saída a não ser ficar 23 horas por lá mesmo.

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Foto: Google

9. Sair da escola e ir para o parque chorar. Esse é o mais triste. Meu primeiro dia de aula, cheguei na escola e não entendi nada. Saí de lá correndo e fui para o St. Green. Sentei no banco, chorei horrores e resolvi voltar para o Brasil. Mandei mensagem para meus amigos e eles falaram: ‘Volta, que iremos te esperar no aeroporto com um chinelo bem grande pra te mandar de volta’. Sim, porque eles sabiam que era só uma fase.

10. Fingir que entende o inglês que os irishs falam. Quem nunca?

11. Dinheiro acabando e eu ainda não tinha trabalho. Chorei horrores, passei algumas noites em claro, tudo porque não queria voltar para o Brasil antes do tempo.

12. Comida. Esse nem foi tão difícil, mas… dinheiro acabando, a gente tem que se virar com o reduced do Tesco ou com o feijão enlatado de 0,23 né?

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Foto: Google

13. Por último e o mais engraçado: Peguei piolho gente. Sim, inacreditável, né?! A pessoa sai do Brasil pra pegar piolho na Europa. Foi na escola das crianças do meu au pair. Imaginem vocês, eu com minha cabeleira cacheada? Vou dizer que não foi fácil, viu. E é claro que eu tive que contar isso para todos meus amigos no Brasil para garantir boas risadas. OBS: Tá, já podem voltar a ser meus amigos, que eu já estou ‘curada’.

É isso! Eu poderia ficar aqui citando inúmeras outras coisas que acontecem diariamente. E sim, eu sei que, muitas vezes, os comentários sobre a ‘vida fácil’ na Europa, não são maldosos. Mas é importante que todos saibam que estamos aqui batalhando da mesma maneira que outras pessoas estão ali no Brasil. Aqui também a gente trabalha, chora, se apaixona, quebra a cara, jura que vai largar tudo e ir embora, tem TPM, como um pote de sorvete de uma vez só, chora de saudade. Mas são apenas momentos. Momentos que passam e que sempre nos deixam algum aprendizado ou garantem boas risadas no futuro!

Blind Pig: O Pub secreto de Dublin

Os speakeasy, também conhecidos como blind pig ou blind tiger, são bares secretos que surgiram nos Estados Unidos, durante a época da Lei Seca, no ano de 1920, para vender bebidas alcoólica clandestinamente. A lei foi uma tentativa de proibir a posse e a ingestão de álcool no país, mas foi abolida em 1933. Porém os speakeasy, jamais desapareceram. Apesar de agora legalizados, é sempre uma emoção descobrir um destes bares, que se escondem nos lugares mais improváveis. Na Irlanda, a Lei Seca nunca entrou em vigor, mas claro que Dublin, um dos maiores consumidores se álcool do mundo,  não poderia ficar de fora do roteiro de pubs secretos.

Depois de ler uma matéria em um dos grupos que participo no Facebook, sobre a existência destes lugares por aqui, pensei: “Vou procurar no Google, só por curiosidade de saber onde fica.” Então, digitei Blind Pig no maps e larguei o Street View onde indicava o local. Pasmem, para a minha surpresa, o View caiu direto dentro de um Pub e eu não consegui ver se que, o prédio vizinho (bem feito, quem manda ser curiosa, né?!).

Então, comentei com meu amigo sobre a vontade de ir até o local e resolvemos fazer a reserva. No site do Pub, encontrei o telefone e o e-mail, então optei por fazer a reserva via correio eletrônico. Recebi a confirmação, junto com uma espécie de “mapa para caça ao tesouro”, que dava as dicas para chegar até o local.

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Me odeiem, mas não serei eu quem irá revelar o segredo =)

Chegou o tão esperado dia, e nem a temperatura de -1° nos fez desistir. Ao chegar, logo de cara, encontramos a primeira pista, então descemos as escadas e é claro, nos perdemos (hahaha). Porém, logo avistamos uma ‘parede’ (modo de dizer, para não revelar o local) se abrindo. Sim, nem precisamos seguir as outras pistas, já que a porta do Pub abre somente de dentro para fora e, exatamente, naquele momento, alguém estava saindo.

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Fomos recepcionados por um dos garçons, que foi logo confirmando nossa reserva e nos direcionando até a mesa. O ambiente do Blind Pig lembra os antigos speakeasy, com um clima que preserva os verdadeiros pubs secretos, a luz é muito baixa e o som ambiente é agradável. O espaço é pequeno, mas não causa nenhum transtorno para a passagem dos garçons e clientes.

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Foto: site The Blind Pig

A carta de coquetéis, bebida típica destes estabelecimentos, foi feita por mixologistas do próprio Pub, com as mais variadas combinações. Então, prepare-se para provar sabores exclusivos. Cada coquetel custa, entre € 11,50 e € 15,50, ou seja, se você, assim como eu, é estudante e au pair, pode ser um pouquinho caro. Porém, como nossa reserva era apenas de 1 hora e 30 minutos, conseguimos aproveitar o espaço sem gastar muito. Mas vá preparado, caso sua intenção seja provar diversos sabores dessas maravilhosas bebidas. O cardápio é outro segredinho do local. Ele fica escondido entre as páginas de um livro sobre a vida de Beethoven e você só percebe que é o menu ao folhear as páginas.

No dia seguinte, recebi um e-mail para avaliar o serviço e o local. Agora diz, é ou não é tudo de bom? Então, se você ficou curioso para desvendar os mistérios que o Blind Pig oferece, faça a sua reserva e enjoy!