IRLANDA: (DES)CONSTRUÇÕES POLÍTICAS/SOCIAIS

Já imaginou viver num país quase que totalmente católico, onde o primeiro ministro é gay, o aborto é legalizado e as crianças acreditam em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e Fadinha do Dente? Bem vindos à Irlanda!

Com o ‘caos’ político em que o Brasil se encontra, é rara a semana que não recebo alguma mensagem em uma das minhas redes sociais perguntando como é a vida na Ilha Esmeralda e como faz para deixar o Brasil. Eu amo responder cada pessoa, mas a primeira coisa que eu preciso perguntar é: “Você está preparado (a) para viver num país como a Irlanda”?

A Irlanda é um país extremamente católico. O divórcio aqui é recente, foi legalizado apenas em 1995 e, mesmo assim, a burocracia enfrentada pelos casais no momento de assinar os papéis é imensa; Métodos contraceptivos tinham venda proibida até, por volta de 1993 e, atualmente, ainda possuem venda restrita. A pílula anticoncepcional, por exemplo, é uma decisão tomada mais pelo médico do que pela mulher e é necessária receita médica para a compra do medicamento; É muito comum escolas primárias serem divididas por gêneros. Aproximadamente 96% das escolas primárias públicas são católicas e, como a taxa de natalidade aqui é relativamente alta, existem filas para você matricular seu filho. São vários critérios utilizados, mas um deles é o batismo. Ou seja, se o seu filho não for batizado, ele vai para o final da fila; Pra completar a lista, na Irlanda não existe motel (o que é menos importante depois desta “lista” de restrições católicas).

Em contra partida, em maio de 2015 a Irlanda foi o primeiro país do mundo a aprovar o casamento homossexual por voto popular. Mais de 3 milhões de irlandeses foram às urnas para responder a pergunta: “o casamento pode ser contraído de acordo com a lei por duas pessoas, sem distinção de seu sexo?”, tendo resultado de 62% a favor.  Foi um momento histórico, já que homossexualidade era considerada crime no país até meados de 1993. “Somos um pequeno país com uma grande mensagem para o mundo”, disse o primeiro-ministro Enda Kenny. Em 2017, Leo Varadkar, de origem indiana, foi eleito o primeiro primeiro-ministro gay da Irlanda.

Porém, estes vestígios de liberalismos, num país onde mais de 78% da população se considera católica, embatiam numa das leis mais restritivas do mundo no que diz respeito ao aborto. E, em 2018, o último tabu da Ilha Esmeralda foi derrubado, também através do voto popular, dando vitória ao sim. Mais de 66% da população irlandesa aprovou a interrupção da gravidez, sem restrições, durante as 12 primeiras semanas de gestação ou em até 24 semanas caso seja comprovado risco de vida à mulher.

Eu acompanhei a luta do movimento LGBT e também das mulheres em busca dos seus direitos. Foi uma luta linda, livre e limpa. As pessoas foram para as ruas, em várias manifestações, para defender suas opiniões e, independente de ser a favor ou contra, entre os dois lados sempre houve respeito. Não houve brigas, ataques e, muito menos, mortes!

Consegue imaginar isso no Brasil? Duas ideias contrárias vivendo em harmonia?

Nós, brasileiros, ainda precisamos aprender a ser e a agir. Vejo pessoas que dizem odiar a situação atual do Brasil se escondendo atrás de textos nas redes sociais. As mesmas pessoas que querem deixar o país e ir em busca de ‘um futuro melhor’ para seus filhos são as que julgam a opção sexual do vizinho e que não cumprimentam o porteiro.

Então, se você pensa em deixar o nosso amado Brasil por questões políticas/sociais, é melhor pesquisar um pouquinho a história do país que deseja residir, porque, talvez, você não consiga se adequar aos padrões do seu novo futuro lar.

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