“Uma mãe, passeando com suas crianças, em frente à vitrines com prostitutas expostas, enquanto, na esquina, um homem fuma seu baseado ao som do sino da igreja anunciando a missa”.

Parece coisa de filme né? Amsterdam é uma cidade charmosa, com diversos centros culturais e que é romantizada por muitos devido aos canais que ilustram suas belíssimas paisagens. Mas o que atrai a curiosidade de muitos turistas são a liberdade e a tolerância nas leis.
Vamos começar pela maconha. A cidade abriga diversos Coffee Shops, que são estabelecimentos que vendem maconha e seus derivados. Não são locais perigosos, mal frequentados e nem lugar que você vai ficar para ficar alucinado de tanta droga. A maconha é consumida livremente nas ruas da cidade e, ao chegar no centro, você já vai identificar o cheiro da especiaria. Ao contrário do que se acredita, a droga não é legalizada no país, ela é tolerada. Isso significa que, na prática, você pode andar com pequenas quantidades (até 5 gramas) e cultivar até cinco plantas. Por outro lado, drogas artificiais são totalmente proibidas. Os Coffee Shops ficam abertos durante todo o dia e tarde da noite e também são “tolerados” até que causem algum tipo de problema. Maconha, cogumelos alucinógenos e seus derivados são vendidos por lá, inclusive, as lojas de souvenir comercializam chocolates, cookies e até o famoso bolinho de maconha para os turistas levar para casa. O valor de cada “beck” varia entre 4,5 e 10 euros e têm de diversos sabores e efeitos. Já o Space Cake (bolinho) pode ser encontrado a partir de 7 euros. O Coffee Shop mais famoso e um dos mais antigos da cidade é o The Bulldog e têm várias filias pelos bairros de Amsterdam. É uma experiência única, ainda mais pra quem curte fumar!
Mas, o que mais chama a atenção no quesito de legalização, em minha opinião, é a prostituição. A Red Light District é uma das atrações mais famosas de Amsterdam e leva este nome por causa das luzes vermelhas que ficam em cima das vitrines onde as garotas são expostas. As mulheres são exibidas como manequins, em roupa íntima, fantasias ou biquíni e ficam dançando ou fazendo alguns gestos para chamar a atenção da clientela. Existem garotas para todos os gostos, literalmente.
Mas como assim? Existe uma rua de prostituição em Amsterdam? Sim, a prostituição é totalmente legalizada no país. A legalização na Holanda aconteceu ainda em 1830, porém, somente em 2000 que as leis se alinharam e o sistema que vigora até hoje foi criado. Todo negócio relacionado à prostituição deve ser registrado junto à prefeitura e cumpre requisitos legais como qualquer outro negócio. A cafetinagem é proibida por lei e as únicas pessoas que podem lucrar ,diretamente, com a prostituição são as próprias garotas. Para isso, elas são cadastradas como empresarias individuais, pagam impostos e possuem direitos trabalhistas como qualquer outra profissão.
A fiscalização é rígida e tem como objetivo diminuir a exploração sexual e fornecer melhores condições para as mulheres. Somente maiores de 18 anos e cidadãos legais de qualquer país da União Europeia podem trabalhar no ramo. Além disso, as visitas ao médico devem ser feitas regularmente e todos os exames e tratamentos necessários são fornecidos gratuitamente pelo governo, inclusive apoio psicológico.
A média de valor, segundo informações locais, é de 50 euros por 20 minutos, mas varia. É necessário negociar o preço, tempo e atividade antes mesmo do cliente entrar na sala, diretamente com a garota. O uso do preservativo é extremamente obrigatório e não há negociação sobre isso. Dentro de cada salinha, existe um botão do pânico, que é acionado caso a garota esteja correndo algum risco.
Pelas redondezas da Red Light District também é possível encontrar Museu do Sexo, Casas de Shows, Sex Shops e diversas atrações que fazer da rua um dos principais pontos turísticos da cidade.
Mas se engana quem pensa que toda essa liberdade resulta em problemas para a capital holandesa. Bem pelo contrário, graças a isso, existe um controle muito maior. A taxa de violência é baixa e o tráfico, apesar de existente, é minimizado. Amsterdam é uma cidade que respeita a individualidade e a diversidade e sabe lidar com as coisas de maneira prática, ao invés de fazer roteiros em torno de questões polêmicas.
Nota 01: A primeira vez que visitei a Red Light District, lá em 2016, confesso que foi meio chocante, assim como ver todos aqueles Coffee Shops comercializando maconha e seus derivados. Já desta última vez, eu estava mais preparada sobre o que iria encontrar e foi uma experiência bem interessante. Quebrar tabus é muito importante para o nosso crescimento e, sem dúvidas, entender a liberdade de escolha da outra pessoa é fundamental para este processo. Amsterdam me ajudou muito nisso. Porém, não significa que você deve ir para Amsterdam e experimentar maconha. Livre arbítrio existe pra isso. Existem, diversos produtos derivados da maconha que podem ser consumidos sem nenhum efeito e que, inclusive, são permitidos levar a bordo quando retornar ao seu país. Chocolates, cookies e o famoso “Space Cake” estão nesta linha. Para quem quiser saber um pouquinho da minha experiência por lá, tem uma Highlight no meu Instagram com vários stories.
Nota 02: Claro que a discussão sobre a legalização da maconha é muito mais complexa quando comparada a outros países, até porque, as pessoas usam a Holanda como exemplo para embasar argumentos de pró e contra legalização de drogas no Brasil. Quem é a favor diz que deu certo na Holanda, já o pessoal do contra, enfatiza que o país virou uma bagunça e se arrepende da “legalização”. Porém, é muito importante ressaltar que as políticas sobre o uso de drogas nos Países Baixos não se restringem a criminalizar, discriminar ou tolerar o uso. Existe sim um sistema de apoio, tratamento e reabilitação para viciados. A diferença é que o problema é tratado na esfera da saúde pública e não na esfera criminal.
Nota 03: É importante ressaltar que é PROIBIDO fotografar na Red Light District. Se as meninas suspeitarem que você esteja fotografando-as, elas irão atrás de você enfurecidas e podem jogar sua câmera/celular nos canais ou, caso você “tiver sorte”, aguardar até que apague tudo. Eu acho justo, já que, apesar de legalizada, a profissão enfrenta muitos preconceitos ao redor do mundo e, também, ninguém quer ter fotos em roupas íntimas, vazadas na internet, sem autorização.
Nota 04: Não são apenas mulheres que trabalham como prostitutas na Holanda. Homens, gays e travestis também exercem a profissão, mas em menor escala. Todo o apoio que os profissionais do sexo recebem do governo não é necessário para eliminar a exploração e o trafico sexual das fronteiras do país. Muitas meninas de países pobres do Leste Europeu vão parar lá enganadas por criminosos e até por namorados, que as prometem uma carreira de sucesso como dançarinas.