Todo mundo tem uma bagagem emocional, histórias e motivos que nos fazem tomar decisões. No meu caso, motivos pelo qual eu decidi morar fora do Brasil por um tempo. E, são esses mesmos motivos que servem de âncora para aguentar a saudade.
Apesar de ser o sonho de muitos, quem decide ir para outro país precisa enfrentar os mais diversos medos. E, mesmo para os mais corajosos, ir embora não é apenas arrumar a mala e embarcar no avião. Além de enfrentar todas as dificuldades do dia a dia, é preciso lidar com a fragilidade emocional. Não tão raro, ouço pessoas falando, com lágrimas nos olhos: “não sei se vou aguentar ficar aqui por muito tempo”. E isso me toca profundamente, talvez por, lá no fundo, ser o mesmo sentimento que o meu.
“Ah, mas morar aí é maravilhoso, para de drama”. Sim, é mesmo. Você trabalha, ganha seu dinheirinho (e ganha bem por sinal), pode viajar, comprar o que quiser. Mas não é tão fácil assim. Diversos fatores contribuem para a instabilidade emocional aqui: a distância das pessoas que você ama, o tempo (sim, aqui na Irlanda o céu fica nublado quase que sempre, o sol não aparece com frequência e sim, isso ajuda nos altos e baixos do humor), o trabalho (que normalmente é subemprego), a língua que você precisa aprender… Enfim, poderia citar inúmeros motivos.
Esses dias eu estava conversando com uma amiga e ela falou: “Aí Lili, me vi, formada, com mestrado, aqui, limpando privada pra pagar meu aluguel”. É exatamente isso, nos vemos perdidos, num lugar totalmente desconhecido, fazendo coisas que não estávamos acostumados a fazer no Brasil e longe daqueles que servem de base para nossa vida.
E, muitas vezes, a pressão por parte daqueles que continuam no Brasil e acreditam que a vida aqui fora é fácil, faz tudo piorar. Frequentemente ouço frases como: “Ah, mas tudo o que eu queria era estar no teu lugar”; “Como assim você quer voltar para o Brasil?”; “Nosso país está quebrado, fica aí”. E, normalmente, essas frases vêm de pessoas que não são tão próximas assim, que não sabem a realidade por trás das fotos que postamos nas redes sociais. Quem está aqui, muitas vezes, precisa se segurar todos os dias pra não pegar o próximo avião e voltar só pra dar um abraço na mãe, no pai, na vó, ou em quem quer que seja.
Eu sempre falo, morar fora é fácil, difícil mesmo é manter a cabeça no lugar pra conseguir ficar aqui.
Claro que não poderia deixar de falar delas, as expectativas. Não adianta, não tem como não criá-las, e o mais difícil é entender que nem tudo sai como planejado. Talvez você não vá aprender inglês tão rápido como imaginou e nem vai encontrar trabalho, e isso poderá causar muitas frustrações. Na verdade, causa muitas frustrações.
Sim, morar fora é maravilhoso, você conhece pessoas/culturas totalmente diferentes das que você convivia, tem novas experiências, realiza sonhos. Mas se você não cuidar do seu emocional, tudo pode desandar da noite para o dia.
Então, se você está planejando passar um tempo fora, saiba que esses momentos de fraqueza psicológica vão chegar e você precisa estar preparado. E, se você já mora e passa por isso, procure fortalezas no que te faz bem. Se programe para estar sempre perto de pessoas que somam, saia para um parque, vá ler um livro, passear na praia, mas não deixe tua cabeça vazia pra pensar em besteiras. Converse com as pessoas próximas. É sempre bom compartilhar sobre sua jornada e suas inseguranças ao longo do seu caminho. Isso te humaniza e humaniza quem ouve. Às vezes, a outra pessoa está passando por algo muito parecido e só precisa saber que todo mundo sente medo, chora, se sente angustiado, e que isso faz parte do processo para seguir adiante.
Outra coisa, sentir tristeza é algo natural, o problema é quando este sentimento se intensifica e provoca mágoas e arrependimentos. Aí é hora de procurar ajuda. Aqui na Irlanda, algumas escolas de inglês oferecem ajuda psicológica para estudantes. Também existem várias instituições de auxilio psicológico pelo país. Mas, se você realmente não está se sentindo confortável, volte pra casa. Não é desistir, não é regredir. Não se importe com o que os outros vão falar. Vá abraçar a tua mãe, teu pai, ver teu cachorro… Depressão precisa ser tratada, e nada melhor do que ser cuidado por aqueles que sempre vão estar ao nosso lado. Quando você muda para outro país, aprende o que é realmente essencial e inegociável na sua vida e descobre que todo o resto pode sim ser substituído.
Nota: Se tem uma coisa que eu amo fazer é conversar. Sempre fui daquelas pessoas que adora ouvir uma boa história, que sempre é procurada pelos amigos pra ajudar a resolver algum problema e sempre se esforça pra dar o melhor em qualquer relação. É incrível a facilidade com pessoas que eu nem conheço direito se sentem confortáveis em compartilhar comigo suas angustias, problemas, sonhos, alegrias e medos. E eu gosto disso. Mas eu também gosto de ser ouvida. E achar pessoas que sabem ouvir não é tarefa das mais fáceis, principalmente quando se mora do outro lado do oceano. Várias vezes me pego chorando, com vontade de largar tudo e ir embora. Como já citei no texto, trabalho, tempo, distância, tudo influencia para os altos e baixos emocionais. Teve uma fase da minha vida aqui que eu realmente pensei em desistir e voltar. Estava muito infeliz, passava o dia chorando, ia trabalhar com a cara inchada, e sabe o que me deu mais conforto? Em uma conversa com meu melhor amigo, que mora no Brasil (diga oi Alisson), ouvi a seguinte frase: “Sabe, se é pra ti ficar aí sofrendo, volta para o Brasil. Do que adianta você estar juntando dinheiro, viajando se não tem um dia que eu converse com você e você está feliz. Volta, pelo menos aqui, você tem a mim, tua família, teus outros amigos”. Isso me tocou de um jeito que, a partir dali, eu decidi que iria fazer diferente. Fazer isso aqui valer a pena pelo tempo que for. E é aí que eu reforço a ideia de se cercar por pessoas que te fazem bem e vão estar do teu lado sempre faz toda a diferença.
Sabe, nem tem como não se identificar com o seu texto. Cada um de nós que passa por essa experiência, mesmo que seja diferente, ainda sim consegue se ver através das suas palavras. Eu precisava ouvir isso hoje. Saber que não estou sozinha. Sempre haverá alguém, naquele mesmo momento, passando por algo parecido. Que tenhamos força para buscarmos a nossa felicidade e que jamais nos esqueçamos que é ok não se sentir ok sempre. O mais importante é não desistirmos de nós mesmos.
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Cara, que texto lindo!
Esse texto põe em palavras aquilo muito tem no coração, parabéns.
Vamos tomar um café! ☕
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Boa noite, moça,
É lindo quando alguém escreve com o coração.
Você vai ficar bem.
Um abraço apertado e gorducho de Niterói para você.
Lena Reis
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